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União regada a viagens e novas experiências

02 Noites em Trinidad

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Trinidad é uma cidade na província de Sancti Spíritus, em Cuba. Em conjunto com o Vale de los Ingenios é um Património Mundial desde 1988. É uma cidade histórica e vale a pena sair do roteiro comum Havana-Varadero e conhecer esta preciosidade.

DIA 01 TRINIDAD

Para ir de Havana a Trinidad, pegamos o Táxi e no caminho fizemos uma pausa em Cienfuegos, onde descemos e demos uma volta pela cidade. Paramos na praça e utilizamos o wifi com o mesmo cartão que compramos em Havana. Tomamos um refrigerante cubano em um restaurante e seguimos viagem.  O táxi que nos conduzia era super novo, um Hyundai Sonata. Questionamos sobre a procedência do veiculo, uma vez que queríamos entender melhor o sistema politico do país. O motorista comentou que o carro é do governo e que cubanos não tem condições de comprar tal carro. Existe um contrato e a pessoa que fica responsável pelo carro precisa pagar uma mensalidade + comissão em cima das corridas ou algo do gênero. Numa dessas conversas com taxistas, descobrimos que muitos deles conseguem driblar o controle e fazer um extra.

Chegando próximo à Trinidad, tivemos que trocar de carro, já que o que íamos, iria voltar vazio. Houve uma camaradagem entre o nosso motorista e outro que levava dois turistas à Havana. Os motoristas negociaram entre si, mas não sabemos ao certo o que rolou. Este último, nos levou até a casa particular que havíamos reservado.

Os donos da casa nos receberam muito amigavelmente.  Estes, um casal de médicos que aluga quartos em sua casa para complementar a renda. Esse esquema de hospedagem é permitido pelo governo, porém há uma fiscalização muito rígida e uma boa parte do que o dono recebe com o aluguel, fica com o governo. Caso infrinjam as regras (aceitar hospedes sem registrar no livro ou aceitar cubanos acompanhando algum turista) eles podem até perder o imóvel.

Uma vez acomodados, Dra. Lisdey tratou de nos explicar tudo o que havia pra fazer na cidade e cerca da cidade, tudo muito rápido porque estávamos morrendo de fome. Indicaram-nos um restaurante no centro colonial e o adolescente da casa, Oswaldo, nos guiou até lá. Oswaldo é um rapazinho muito atencioso, curioso com as coisas do “mundo externo” e que carregava sua bicicleta tipo “speed”. Quando questionado se gostava dela, ele disse que não. Falou que gostaria de ter uma mountain bike, mas não sabia onde poderia comprar. Disse apenas que sabia que deveria ser importada.

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Ele nos conduziu pelas ruas de paralelepípedo até o restaurante indicado, em frente à casa da música. O padrão dos restaurantes em Cuba é bem similar, se for carnívoro é melhor apostar em peixes e frutos do mar. Demais carnes não são muito o forte deles. Caso seja vegetariano…aí é algo complicado. Praticamente não resta opção além do arroz e feijão.

Após o almoço, fomos caminhar pelo centro histórico, mas o calor estava insuportável. Paramos numa praça em frente a um café.  Ali havia duas crianças cubanas  dividindo um par de patins e aprendendo a andar. Caiam muito e davam muita risada. Em um determinado momento, os filhos de um casal estrangeiro  tentaram ajudar com mímica para que o garoto patinando aprendesse a se equilibar. Enquanto isso, um senhor cubano sentado à nossa frente puxou conversa. Ele que até então só se divertia com a cena das crianças, perguntou umas três ou quatro frases sobre de onde éramos, quantos anos tínhamos, até pedir uma moeda. Perguntei se um sabonete servia (como muitos outros que ajudamos antes) e ele aceitou agradecido e desapareceu.

Na sequencia, apareceu um homem oferecendo passeio a cavalo, que incluía um banho de cachoeira que nos chamou a atenção.  Logo tratamos de contratar o passeio e fomos mata adentro em cavalos aparentemente não muito cuidados, pois queriam abandonar a trilha o tempo inteiro para comer as plantas do caminho e um deles tinha sua pata ferida. A trilha era longa, com pontos muito íngremes e cheios de pedras. Ficamos com muita dó dos cavalos. Para o bem deles, a trilha até a cachoeira era a pé e puderam descansar. Após uns 10 minutos de caminhada, chegamos até a cachoeira que não era muito grande, mas debaixo dela a área de banho é muito bonita e agradável.

De volta à cidade, um banho antes de irmos a mais um local indicado para jantar. Novamente o Oswaldo nos guiou, para o restaurante de um médico amigo deles. Sentimos que havia uma resistência quanto aos restaurantes do governo, então nos indicavam sempre os privados, sentimos que como uma forma discreta de protesto. A politica em cuba é um assunto do qual não querem muito comentar, mas desabafam indiretamente. Foi o que percebemos.

O restaurante em questão possuía um terraço arejado e havia uma banda se apresentando. O dono estava à porta, uma figura simples, de bermuda e chinelos, que observava a rua solitariamente. Uma grata descoberta em cuba é ter contato com médicos que são gente como a gente e desmistificar a ideia predominante no Brasil, defendida pela classe e consentida pelas pessoas, de que médicos estão em outro patamar. E me arrisco a dizer mais, os médicos cubanos me parecem muito acostumados a lidar com as adversidades e a falta de recursos na área de saúde, o que me faz crer que se encaixam perfeitamente à realidade brasileira para os quais muitos se destinaram ao embarcarem para o programa mais médicos.  Pena é saber que muitos cubanos vieram ao Brasil praticamente obrigados pelo seu governo e recebiam apenas uma parcela de 30% do que lhes é pago pelo governo brasileiro. Pena é saber que mesmo assim vale a pena sair em “missões”, pois terão a oportunidade de conhecer coisas novas e receber um dinheiro que nunca receberiam em Cuba, mesmo ficando com uma pequena parte. Pena maior ainda é saber que faltam médicos em Cuba, pois muitos vão embora, seja nessas missões ( com o aval e controle do governo) ou simplesmente abandonam a ilha na expectativa de conseguirem uma melhor remuneração em outro país. Foi muito confuso para nós, compreender como uma pessoa que alugue um carro do governo para trabalhar como táxi de turistas, consegue fazer mais dinheiro que um médico com sua jornada usual de horas + plantão. Coisas de Cuba.

Dia 02 TRINIDAD

Neste dia, pagamos um taxista local, em seu carro particular, para que nos levasse para conhecer o litoral da região. Fomos por todas as praias até a praia Ancón que nos pareceu cheia, então pedimos ao motorista que nos levasse até a praia anterior, chamada Maria Águilar. Muito tranquila, com agua cristalina, sombra de um qiosque e um bar à disposição. Não há camas nem cadeiras de praia. Adoramos. Um verdadeiro paraíso.

No horário combinado, fomos comer em um restaurante próximo e nosso taxista foi convidado a comer conosco. De início recusou, mas após falar com sua esposa (que havia preparado o almoço), aceitou o convite. Rafael foi uma companhia muito agradável. Nos contou sobre as mazelas da sua vida, porém nos mostrou muito otimismo.

Ao final da tarde, ao nos deixar, desejou que da próxima vez pudesse nos conduzir num carro mais novo. A verdade é que para nós, mais valioso foi conhecê-lo. O tipo do carro pouco importava. Para cada cubano que conhecemos, nos vinha uma pergunta à mente: Como será receber o mundo e nunca ir lá? No discurso, sempre há um tom de admiração por coisas que ouviram falar ou viram na televisão. A postura deles  é um misto de inocência, autenticidade, anseio  por liberdade, conformismo, falta de esperança, e sobretudo,  um olhar humano. É difícil descrever isso, mas lá nos pareceu que a essência do ser humano é mais presente. Eles são o que são, acanhados, reservados, mas depois que se consegue uma aproximação, o coração está alí, aberto e pulsante para ser acolhido ou ferido. Eles são vulneráveis. A maldade que conhecemos, as carapuças, as máscaras, lá não são vistas. Se tentam ganhar alguma vantagem, fácil identificamos e eles agem com vergonha ao serem notados. Somos treinados. Nossa sociedade nos moldou assim, vence quem é mais esperto e com mais habilidades desenvolvidas. O índice de criminalidade lá é praticamente inexistente. O governo é firme nas punições e fiscalizações. As pessoas tem medo de sair da linha. Todos buscam obedecer ao máximo, ainda que não concordem. É uma realidade muito ímpar. Ficamos muito mexidos com esse contato e descoberta. Provocou-nos muitos sentimentos. Bom, é mesmo difícil de explicar.

À noite, jantamos na casa particular e foi uma noite muito intensa. No inicio seguiram o script, fizeram o jantar, serviram a mesa e demonstraram que iriam nos deixar “à vontade”.  Não nos sentimos nem um pouco à vontade. Insistimos para que todos sentassem à mesa conosco e aí estabelecemos uma conexão. Foi uma refeição muito agradável e rica em termos de troca de cultura, experiências e sentimentos.  Os anseios ficaram latentes (tanto de um lado, como do outro, não se enganem),  com direito à varias reflexões sobre a vida e aí sim tivemos um “click” e pudemos compreender melhor muita coisa que na visão do turista pura e simplesmente, passam despercebidas. Aquela família nos marcou, fomos felizes na escolha da casa. Voltaremos certamente.

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